quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

os anos...

Na noite passada, Irene foi ao cinema, viu um filme de amor que falava do tempo, falava de envelhecer. Saiu introspectiva, o cenário do Leblon pouco lhe dizia, era só chão pra pisar. Sentou no bar mais póximo, tomou três chopps sem pausa, pagou a conta, pegou o carro e foi dar um beijo no namorado que estava bêbado no pagode do negão. Foi do Leblon até o Flamengo, desenrolou o estacionamento e a entrada do pagode com uma sagacidade que não conhecia para dar um beijo de três minutos. Julgou decadente o estado do namorado e do pagode, mas o desejo que a levou ali foi suficientemente forte para, durante aqueles três minutos, esquecer-se de si e em volta. Tudo foi beijo, nele couberam os anos...

Deitada na cama, pensou em sua velhice, sempre a imagina como um momento de plenitude, uma velhinha doce e bárbara. Acha que finalmente saberá muitas coisas sem precisar dizê-las, que lhe será possível a humildade e a generosidade. Talvez seja o medo da morte que lhe faça romancear as coisas, ou quiçá seja uma intuição. Irene nunca acredita em suas intuições, em geral as dúvidas lhe parecem bem aceitas, se classifica como um membro intelectual ateu do mundo ocidental, um bom título, crê. Mas sabe, já me confessou que às vezes fica cansada.

Na noite passada, Irene não dormiu. Não conseguia parar de pensar, o ritmo de seu pensamento ia a muitos volts por minuto, muitas dúvidas, enredos, lembranças, vozes que se concordavam e descordavam. Vez em quando, olhava o relógio; estavam em total dissonância. Irene corria no tempo, galopes entre futuro e passado, corria com seu cavalo com um certo desespero, ansiava chegar em algum lugar, que não a cama onde estava deitada. Já a noite se arrastava lenta, acorrentada.

Foi até a cozinha, fez um chá, decidiu esperar o dia. Quando ele veio, Irene estava junto.

domingo, 4 de janeiro de 2009

meio-dia

.


Passados dez meses escrevendo cartas de amor,
Irene perturba-se e se pergunta se está predestinada
a amar as cartas, uma espécie de romance particular; ou
se dá as mãos de verdade, balança-as junto, sente
o toque na mão e a mão no toque.

Irene ama as cartas de amor porque é muito mais bonita
nelas que em real espelho. Fica linha em dobraduras de pano
e renda, fica franzida numa prega de saia, descobre-se ávida,
bicho, beira de rio, uma graça de flor, é de terra alguma nessas cartas !
Essa sensação a engrandece, Irene se sente livre.
Mas passados dez meses, já não se sentia livre, sentia-se um tanto confusa:
amava as cartas ou o sujeito da correspondência?

Até que ele veio, aquilo não tava certo. Quase
prestes à morte súbita da dúvida e da distância, o amor veio cheio
de imperativos, veio na presença forte do solão de meio-dia.
Deu confusão na fábula que não tinha final feliz, pelo simples motivo
de não ter fim. No entanto, a colocou pra caminho, cem mais terras.

As dúvidas se mantém, sempre vestidas de alguma roupa estranha...
Certeza, só uma:

As cartas de amor são ridículas, bregas. "Não seriam
cartas de amor se não fossem ridículas"


Irene está feliz e com vergonha.